sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Atacadão dos Filmes, quase um manifesto




fotos Érica Rocha
O que se espera de uma mostra de filmes ? Numa cidade como o Rio, onde assistimos a um grande festival de cinema a cada mês, espera-se que todo tipo de filme, de todos os países, classes, raças e credos possa ser visto com freqüência. Infelizmente , não é o que acontece. Ao menos em relação aos curtas metragens, o que se vê é um círculo cada vez mais fechado de diretores/produtores que possuem seus projetos aprovados nos escassos editais de produção.  Exibidos e elogiados num círculo vicioso de mostras e festivais, onde a liberdade criativa e estética nem sempre são levadas em conta, esses filmes tem em seu conteúdo uma mediocridade narrativa impressionante,  na maioria das vezes. Enquanto isso, uma mostra que se diz a “Mostra oficial de Curtas no RJ” esbanja os recursos dos apoiadores em whisky importado e absinto para inglês beber...

O programador do Cine Arte UFF, Alex Vancelote, em seu artigo sobre o filme Fala Tu afirma que
“o cinema brasileiro sempre foi feito por quem mora na Zona Sul(...)E, em geral, são os endinheirados que continuam a produzir imagens e a falar sobre tudo, inclusive sobre os pobres”.
Pelo menos era assim até eclodir o que alguns teóricos chamam de revolução digital. Nasce daí um grande número de produtoras ligadas a movimentos populares que a partir do final dos anos 90 passam a refletir uma outra realidade,à partir de um outro ponto de vista. Vídeos produzidos em computadores domésticos,abordando tudo quanto é assunto tabu que dificilmente obteria recursos de marketings das empresas, através de mecanismos de isenção fiscal, surgem no formato digital, começando a contar uma outra história audiovisual, ampliando o discurso cinematográfico até então praticamente restrito a elite e classes média. A difusão via internet possibilitou também um circuito incontrolável por censuras disfarçadas de ética nos meios televisivos e nos pudicos circuitos cinematográficos.

O Atacadão dos Filmes surge da constatação de que há um imenso abismo entre a realização de filmes independentes e a sua exibição pública. Seja pela falta de recursos dos realizadores ou pela falta de espaço nas telas ocupadas pelas classes dominantes,ou mesmo por um decadente discurso em favor da moral e ou do bom acamento técnico, esses filmes revelam histórias que vão
muito além do universo mostrado pela Globo. Em suas sessões, realizadas há quase um ano no Circo Voador, Lapa, pode ser visto desde uma porno-chanchada paulista contemporânea até um manifesto pela ocupação de uma terra improdutiva na baixada fluminense, de um filme sobre a utilização de plantas alucinógenas no nordeste brasileiro até um clipe de hip hop em defesa da pirataria, de uma homenagem ao cinema marginal e ao samba de breque a uma colagem de filme pornô com animação da turma do Mickey, de um filme black power de Santiago Alvares até um documentário sobre invasores de festas rave.

Que outra mostra ou festival de filmes exibiria temas tão malditos ?