sexta-feira, 25 de novembro de 2016
Alguns filmes que consegui ver durante o trampo no festival do rio e que ainda não saíram da minha cabeça: Destruction Babies (filme japonês niilista como não via desde o curso de cinema japonês do João Luiz Vieira, em 1998) , Gimme Danger (doc do Jim Jarmusch sobre os Stooges), Primeiro Janeiro, produção argentina incrivelmente sensível sobre relação pai-filho em um dia no campo, Sonita, Rapper Afegã, cinema direto bombástico filmado no Irã e Afeganistão, além de alguns docs britânicos e norteamericanos bem competentes,The Hard Stop, sobre abordagem violenta da polícia em um conjunto residencial em Londres onde qualquer semelhança com a abordagem da PM nas favelas brasileiras não é mera coincidência; Author: The JT Leroy Story sobre a escritora que causou frisson na literatura, cinema underground americano e no mundo do indie rock, cuja verdadeira identidade revelada no NY Times tornou-se uma "bomba de efeito moral", revelando uma jogada genial a la "F for fake"... Infelizmente, na sala que trabalhei não exibiram nenhum filme brasileiro, apenas 2 ou 3 documentários-sobre-favelas-dirigidos-por-gringos, o que está virando quase um subgênero de documentário...gostaria de escrever mais sobre todos estes filmes, quem sabe um dia...
sábado, 2 de abril de 2016
KOLLASUYO
Kollasuyo, nome indígena da
região que corresponde ao território da Bolívia antes da dominação espanhola,
documenta o militarismo e a resistência indígena e camponesa na América Latina,
particularmente registrando dois momentos de lutas recentes articuladas pelo
povo boliviano, entre fevereiro e outubro de 2003. Da memória dos povos arraigados
a terra, surge a mensagem de luta permanente pela recuperação da identidade,
herança de Tupac Amaru e outras tantas lideranças de insurreições populares. A
cultura européia, através da dominação pelo cristianismo, escravizou índios e
camponeses, separando das nações indígenas o conceito da Terra-Mãe (Patchamama), dissolvendo
identidades e extraindo das terras
latinas a matéria prima para o desenvolvimento do capitalismo na Europa e no
resto do mundo. Potosi, cujas minas de prata fizeram nascer o capitalismo
europeu, é hoje a cidade mais pobre da Bolívia.
Muito além do registro histórico do momento que precedeu a eleição de Evo Morales, primeiro presidente indígena da América Latina, Kollasuyo, documentário de Pedro Dantes, realizado em 2006 é um manifesto a permanente luta pela memória e recuperação da identidade e da dignidade das populações indígenas da América Latina.
Muito além do registro histórico do momento que precedeu a eleição de Evo Morales, primeiro presidente indígena da América Latina, Kollasuyo, documentário de Pedro Dantes, realizado em 2006 é um manifesto a permanente luta pela memória e recuperação da identidade e da dignidade das populações indígenas da América Latina.
domingo, 13 de março de 2016
FOME DE CRISTIANO BURLAN
Nos primeiros 16 minutos de Fome assistimos longos planos seqüência feitos em steadycam acompanhando Jean-Claude
Bernadet transmutado em um morador de rua que perambula por são Paulo, vagando
pelo centro da cidade e dormindo na escadaria de uma igreja. A partir daí parece
que o filme vai virar um documentário sociológico sobre moradores de rua feito
por uma estudante universitária, só que não. O pseudo-documentário que invade o
filme é um pretexto para voltarmos ao personagem andarilho de Bernadet percorrendo
ruas, túneis, elevados, praças da cidade, encontrando outros moradores de rua,
dialogando com um ex-aluno que coloca em questão o processo de toda uma vida de
estudo e ensino sobre cinema brasileiro (bela solução do roteiro que permite um
longo diálogo reflexivo sobre a condição atual de Bernadet, que não atua mais
como professor, crítico e ensaísta há alguns anos).
De certa forma, Fome é uma bela homenagem a Bernadet e as idéias que sempre
defendeu como crítico, na contramão da abordagem da miséria excessivamente
presente no cinema brasileiro, e contra todo um pensamento de uma pretensa
“bondade e piedade” em relação a abordagem da pobreza, personificado na sua
reação violenta as atitudes esporádicas de piedade burguesa, seja na cena do
casal oferecendo comida, seja na recusa do cigarro ou da ajuda para carregar
seu carrinho de compras cheio de pertences.
No filme, Bernadet ironicamente acaba sendo
objeto de uma pesquisa acadêmica de uma estudante burguesa, em conflito
existencial com seu próprio compadecimento em relação a miséria, mas aqui o
ex-crítico não aceita esta sua condição de mero objeto de estudo e interrompe
um encontro formal do que seria uma experiência quase acadêmica para uma outra
possibilidade de relação, ao mesmo tempo uma critica sobre todo um método de
entrevista usado e abusado nos documentários brasileiros, outro alvo de crítica
de Bernadet ao longo de sua trajetória: “Porque a gente não faz outra coisa.
Por exemplo: você gosta de cantar?” Chico
Serra
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