domingo, 27 de maio de 2012
on the road com che guevara
depois de transformar che guevara em "pastel de vento", segundo luiz rosemberg filho,
o que teria acontecido com o jack kerouac do walter salles ? porque ninguém fala nada nada sobre o cinema brasileiro em cannes ? acredito em apostas nos curtas ou no projeto de cavi e luciano vidigal sobre os atores de cidade de deus, 10 anos depois...vamos ver pra onde andará o colosso do sul, como diria fred 04.
sábado, 5 de maio de 2012
E O TESOURO PERDIDO DE NAVARRO
Depois de exercitar a linguagem clássica com alguma
experimentação visual em seu longa de estréia Eu me Lembro, de 2005, 7 prêmios no Festival de Brasília,
incluindo diretor e roteiro, em O Homem
que não dormia, Edgard Navarro assume todos riscos de fazer um filme
provocador e livre, apostando num
estilo inédito, que aparentemente não tem
relação com nenhum de seus filmes anteriores. O Homem que não dormia é um filme de mistério, se aproxima de um
terrir, pra ficar na definição do inventor Ivan Cardoso. Num debate sobre o
filme Navarro definiu como “sessão espírita as avessas...”, mas nos jornais
mais categóricos seu gênero ficou definido entre terror e suspense. Um filme
estranho, certamente, de difícil
assimilação. No entanto, se
tentarmos um mergulho mais profundo, encontraremos submersas várias angustias e
perplexidades de Navarro: a loucura e a repressão moral e política de uma
cidade provinciana (Navarro considera sua cidade uma Macondo mas seria
inconscientemente Salvador ou outra cidade brasileira?), a crítica a uma
hipocrisia da igreja católica, o sexo como necessidade visceral, um certo
coronelismo ancestral típico do nordeste, o sincretismo e a pan-religiosidade e
a busca de uma espiritualidade mais eclética.
Se voltarmos ao final psicodélico de Eu me lembro, podemos tentar entender as
cenas iniciais de O Homem Que Não Dormia
como uma continuação daquela viagem de cogumelos, porém o êxtase da sua infância em retrospectiva felliniana
se transforma numa bad trip agoniada
e caótica, que aos poucos se transforma numa bela e estranha narrativa. Navarro
faz um filme atormentado como que pra desfazer um determinismo trágico, pra se
livrar de um karma...
A base do roteiro, escrito em 1978 e que esperou
mais de 30 anos para ir para as telas (seria o tesouro perdido de Navarro?)
está nas prosas e na contação de histórias, mitos e lendas somadas ao pesadelo
de Navarro; o Saci, a Mula sem Cabeça, a metáfora do tesouro escondido...este
universo nos remete ao imaginário e as canções da personagem Creu (Valderez
Freitas), de Eu me Lembro, um
universo mais da senzala que da casa grande. ”O tesouro maior é aquele que
liberta a pessoa da amarração do destino” profetiza a vidente, que dá consulta
e banho de ervas para ao padre buñuelesco interpretado por Bertrand Duarte.
Numa das seqüências iniciais com o Coronel, retorna ao tema do suicídio metafórico (o revolver roubado
do pai em Eu me lembro) e o revolver
como símbolo fálico de poder.
Navarro retoma também o seu desprezo pelo autoritarismo e a loucura
gerada por uma repressão moralista e católica, bem tipicamente brasileira, com
o inacreditável personagem Pra Frente
Brasil (Ramon Vane - Prêmio de Melhor Ator no Festival de Brasília de 2011). A busca de uma espiritualidade fora
da igreja, fora da tradição católica, não deixa dúvidas de que filme e diretor
são a favor de todas as liberdades, e Luiz Paulino dos Santos é a figura mística
que transita entre o a realidade e a fábula e é a alma do filme (Seu Paulino
como ser andante e em busca de outra espiritualidade além da pregada na igreja
ortodoxa, no Santo Daime), e os planos que caminha pela incrível paisagem do
recôncavo baiano cantando os hinos de Mestre Irineu devem ficar na história do
cinema brasileiro moderno e ancestral.
O Homem que
não dormia
é um filme para ver e ouvir muitas e muitas vezes. Infelizmente, encontrará
poucas telas para ser visto e escutado... Sylvia Abreu, produtora do filme,
lamentou a falta de salas para este tipo de filme, no lançamento do filme no
Rio, no Cine Odeon, mas Navarro considera cumprida sua missão – espiritual e criativa.
Chico Serra
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