Muito Romântico
"Autobiográfico? Se
eles soubessem!"
Lou Reed, sobre o álbum
Berlin (1973)
Muito Romântico surge como um reflexo de um amadurecimento da trajetória de mais de 10
anos da dupla Distruktur (jogo de
palavras que envolve estrutura, dualidade e destruição), formado por Gustavo
Jahn e Melissa Dullius. Realizando
filmes, fotografias, instalações e filmesperformances, Gustavo e Melissa se
apresentaram em diversos festivais, galerias e centros culturais em diversas
cidades do mundo (Moscou, Berlim, Recife, São Paulo, Nova York, entre outras). Nesse
sentido, o filme funciona quase como uma retrospectiva autobiográfica, mesclado
um autorretrato carregado de texturas expressivas (há quase uma obsessão da
dupla pelo formato 16mm), além de mirações psicodélicas e reflexões sobre o
próprio fazer artístico. Um olhar de dentro pra fora (e vice versa) sobre a
trajetória da dupla de realizadores que partiu rumo a Berlim, onde residem há
uma década experimentando outras narrativas. Há uma incansável resistência na
busca por uma nova forma de expressão audiovisual nesta vivência de Melissa
& Gustavo pelo mundo, transando filmes e projeções 16mm, relacionamento
conjugal e festas psicodélicas surrealistas, tentando sobreviver entre a vida e a arte. O filme é um
mergulho profundo no cotidiano destes indivíduos e nas suas respectivas visões
de mundo. E assim a dupla se joga
nos arredores de Berlim fazendo seu cinema sem fronteiras narrativas. “O que
fica é o que a gente faz”, afirma Gustavo numa diálogo lúcido (um dos poucos do
filme, aliás), misto de carta de intenções e profecia.
Mas esse olhar quase documental sobre o cotidiano acaba encontrando
novamente o caminho de um cinema onírico, que aborda ao mesmo tempo a
perplexidade destes realizadores desbravadores
de fronteiras e linguagens e um manifesto sobre sua busca de um
lugar ao sol, em meio ao caos da urbanização/gentrificação de uma megalópole em
constante transmutação (não que aqui na Pindorama seja muito diferente em
termos imobiliários). Em 2007, escrevi sobre a importância de Éternau como um contraponto a canoa
furada do cinema narrativo e não foi difícil compreender o que os levou a
atravessar o atlântico a bordo de um navio cargueiro, navegando entre a
necessidade de seguir com força total e a incerteza de seu próprio percurso.
Penso que esta é a própria metáfora da obra dos realizadores, um trabalho em
construção (ou colagem) permanente de um filme no outro, um conceito em
contraponto ao outro, sem necessidade de um destino (ou conceito) pré-definidos.
Enfim, os méritos de Muito
Romântico não estão apenas na explosão de texturas fílmicas e na singular
abordagem de uma certa nuance autobiográfica, mas também na sua reflexão sobre
o tempo, o espaço e o deslocamento, além de uma incessante busca de novos e
desconhecidos caminhos cinematográficos.
Chico Serra