quarta-feira, 12 de abril de 2017

Muito Romântico


Muito Romântico

"Autobiográfico? Se eles soubessem!"
Lou Reed, sobre o álbum Berlin (1973)
Muito Romântico surge como um reflexo de um amadurecimento da trajetória de mais de 10 anos da dupla Distruktur (jogo de palavras que envolve estrutura, dualidade e destruição), formado por Gustavo Jahn e Melissa Dullius.  Realizando filmes, fotografias, instalações e filmesperformances, Gustavo e Melissa se apresentaram em diversos festivais, galerias e centros culturais em diversas cidades do mundo (Moscou, Berlim, Recife, São Paulo, Nova York, entre outras). Nesse sentido, o filme funciona quase como uma retrospectiva autobiográfica, mesclado um autorretrato carregado de texturas expressivas (há quase uma obsessão da dupla pelo formato 16mm), além de mirações psicodélicas e reflexões sobre o próprio fazer artístico. Um olhar de dentro pra fora (e vice versa) sobre a trajetória da dupla de realizadores que partiu rumo a Berlim, onde residem há uma década experimentando outras narrativas. Há uma incansável resistência na busca por uma nova forma de expressão audiovisual nesta vivência de Melissa & Gustavo pelo mundo, transando filmes e projeções 16mm, relacionamento conjugal e festas psicodélicas surrealistas,  tentando sobreviver entre a vida e a arte. O filme é um mergulho profundo no cotidiano destes indivíduos e nas suas respectivas visões de mundo.  E assim a dupla se joga nos arredores de Berlim fazendo seu cinema sem fronteiras narrativas. “O que fica é o que a gente faz”, afirma Gustavo numa diálogo lúcido (um dos poucos do filme, aliás), misto de carta de intenções e profecia.

Mas esse olhar quase documental sobre o cotidiano acaba encontrando novamente o caminho de um cinema onírico, que aborda ao mesmo tempo a perplexidade destes realizadores desbravadores de fronteiras e linguagens e um manifesto sobre sua busca de um lugar ao sol, em meio ao caos da urbanização/gentrificação de uma megalópole em constante transmutação (não que aqui na Pindorama seja muito diferente em termos imobiliários). Em 2007, escrevi sobre a importância de Éternau como um contraponto a canoa furada do cinema narrativo e não foi difícil compreender o que os levou a atravessar o atlântico a bordo de um navio cargueiro, navegando entre a necessidade de seguir com força total e a incerteza de seu próprio percurso. Penso que esta é a própria metáfora da obra dos realizadores, um trabalho em construção (ou colagem) permanente de um filme no outro, um conceito em contraponto ao outro, sem necessidade de um destino (ou conceito) pré-definidos.

Enfim, os méritos de Muito Romântico não estão apenas na explosão de texturas fílmicas e na singular abordagem de uma certa nuance autobiográfica, mas também na sua reflexão sobre o tempo, o espaço e o deslocamento, além de uma incessante busca de novos e desconhecidos caminhos cinematográficos.

Chico Serra

Com o terceiro olho na terra da profanação: Abrindo o terceiro olho ou as bruxas de Nilópolis




Segundo o wikipédia (cujas fontes sobre este tópico não são citadas), o terceiro olho ou o sexto chakra, como é conhecido no hinduísmo, pode alcançar um alto grau de capacidade intuitiva e sensitiva se for bem desenvolvido. Enfraquecido, pode apontar para um certo primitivismo psico-mental, ou no aspecto físico, pode evoluir para um tumor craniano, ou seja, o câncer. Esta tradução metafísica pode ajudar a compreender bem a mística que envolve a realização deste filme singular e surpreendente realizado dentro de um processo coletivo e colaborativo, segundo sua diretora Catu Rizo. “Qualquer coincidência com a realidade é pura magia”. Destes elementos, surge um filme feminino poderoso, que pode ser visto também como uma crônica anárquica sobre a vida social de três jovens amigas a flanar pelo subúrbio (o filme foi rodado em Nilópolis, Baixada Fluminense, território místico e subversivo por natureza). Em busca de afeto e liberdade, as protagonistas promovem sessões de bruxarias em terrenos baldios e outros territórios simbólicos. Com o Terceiro Olho na Terra da Profanação, estréia no longa metragem da diretora Catu Rizo (guardem esse nome!), ainda é sublinhado por uma poesia incrivelmente livre e uma seleção musical intergaláctica, onde escutamos Patti Smith, Mercenárias e Smetak, entre outras freqüências sonoras, como a banda punk rock no bar sem nome, que aparece a certa altura do filme nos revelando que “tudo que é sólido desmancha no ar”...
RJ, verão 2017
Chico Serra