sábado, 15 de agosto de 2020
Kino Copa, de Chico Serra e Igor Cabral
O projeto Kino Copa, atualmente composto por dois curtas-metragens produzidos entre 2002 e 2018, habilita uma reflexão contundente sobre os caminhos do Brasil neste ainda curto, entretanto extenso, século. Chico Serra e Igor Cabral filmam o carioca a partir do desempenho da seleção brasileira no mundial que ocorre a cada quatro anos. Isso implica em uma tomada observacional sobre o brasileiro e sua relação com um evento que está atrelado a uma certa tradição da vitória, onde a nação é protagonista e se sobressai como uma potência aos olhos do mundo.
Enquanto documento flagrante que capta o ânimo em que o país se encontrava, esse conjunto de filmes traz à luz uma radiografia do estado de espírito do brasileiro em períodos tão dissonantes, indo de uma certa propensão à esperança até a descrença absoluta. A primeira Copa registrada, de 2002, traz uma coloração mais equilibrada, com uma contenção maior quanto ao comentário político. É o ano em que o pentacampeonato é conquistado sobre a Alemanha – que ameaçava empatar com o Brasil caso conquistasse o tetra –, consolidando a liderança da seleção brasileira no mundial. Alguns meses mais tarde, a vitória de Lula e do PT, um marco incontestável na política brasileira, irá simbolizar uma renovação política e um período de relativa prosperidade, inclusive para o cinema brasileiro. Este verá um fôlego incomum de investimentos: do surgimento de editais de financiamento para fomentos diversos à destinação expressiva de verbas a políticas de preservação.A primeira década do século vai expandir a exibição da produção com a proliferação de festivais de cinema por todo o país – muitos deles hoje extintos. Institucionalmente, a Agência Nacional do Cinema (ANCINE) assume um papel que estava vago desde a supressão da Embrafilme, em 1990; e a Cinemateca Brasileira conhece um período próspero de investimentos nunca antes experimentado, se constituindo em um dos órgãos de preservação mais aparelhados do mundo.
É com uma aparente alegria celebratória, plenamente justificada pela vitória do mundial, que o primeiro Kino Copa inicia seu mosaico de instantâneos nas ruas. Esta alegria não está apenas na coleção de anônimos captados pela equipe, ou na interação de um intérprete boêmio, Godô Quincas, que anima os registros afinado ao espírito de despojamento do projeto. Ela está no discurso do filme, na mão leve com que seus diretores alinhavam os momentos de euforia sem, contudo, deixar de dedicar alguns momentos a falas mais críticas.
Os primeiros minutos deixam a impressão de que se trata de um panfleto sobre a vitória a partir de uma abordagem popular, propensa a mostrar o lado pitoresco das celebrações. É fluido como um videoclipe e também formal no que concerne a alinhavar comentários documentais de olho em paralelos divertidos. Um deles está na justaposição de dois depoentes que contrastam o elogio ao moderno e o apego ao arcaico a partir da evolução tecnológica. O primeiro, que tem atrás um micro system, saúda a televisão à sua frente, a “ tela líquida de cristal, que é outro tipo de imagem ”; o segundo, um idoso, desaprova a própria televisão: “ eu tenho meu rádio, meu papagaio aqui ”, portando o aparelho em mãos com a antena esticada. O contraste é divertido, escapa do enfoque esportivo para tentar abarcar discussões periféricas, encontrando um forte ponto de apoio nas técnicas de um Eduardo Coutinho. Apresenta também uma influência televisiva, na verve expositiva e no ritmo contagiante de programas como Programa legal ou Documento especial – referências no que concerne à captação contundente de manifestações e comportamentos populares nos anos 90.
O primeiro Kino Copa parte para um comentário político mais consistente na segunda metade, em uma locação no Leblon, coração da zona sul carioca. É o caso de apostar em um pouco mais de pretensão na mise-en-scène e proporcionar um debate mais denso, para além da alegria de captar as nuances da celebração. Na interação entre o apresentador, um cidadão que acompanha o jogo na mesa de bar e uma criança desassistida que aparece ao fundo e desloca o espaço da ação, fica consolidado o cruzamento entre espontaneidade e perfomance. Ou entre a intenção de fazer uma sóbria crítica social e vê-la interrompida por excessos irregulares – nesse momento, Kino Copa guarda uma semelhança talvez involuntária com a parcela mais engaja da filmografia do cinema marginal no que diz respeito à adoção de uma postura lúdica ao abordar temas pretensamente densos. Mas o paralelo não é lá muito promissor. O final melancólico, a figura indiferente do menor solitário entre a multidão que celebra o gol com embriaguez, contrasta uma conclusão sombria ao início festivo. A construção do discurso crítico sobre um país arrasado por suas desigualdades sociais, mas anestesiado por uma alegria efêmera, encerra um capítulo apegado à prosperidade, a conquista do penta. É uma conclusão imprevisível que não deixa de denotar uma intenção de amadurecimento. Os realizadores tentam enxergar para além do divertimento passageiro que contagia o povo, mas não reduz sua condição desfavorável, subdesenvolvida.
Um último comentário pode ser feito também em relação à captação das imagens empregadas no filme. Em convergência com a popularização das mídias eletrônicas e digitais, Kino Copa faz conviver materiais em 16mm, VHS-C e HI-8, demonstrando as possibilidades híbridas que proporcionaram uma explosão de produções na década passada. Alinhadas à ideia do “faça você mesmo”, essas experimentações vigoraram com força enquanto uma saída fácil e barata aos altos custos do processo fotoquímico. A quebra do monopólio da película e a democratização do acesso proporcionada por novas mídias serão fundamentais para o surgimento de propostas como a Mostra do Filme Livre – evento que surge justamente em 2002, ano da produção, com a clara intenção de trabalhar sob preceitos semelhantes. Sem nenhuma pretensão de entrar nessa discussão ao longo de toda sua duração, o trabalho acaba documentando de forma involuntária o estágio próspero de experimentação entre bitolas e formatos que caracteriza o período. Algo hoje já não tão comum, com o enfraquecimento mundial da produção em celuloide. É o que se constatará no Kino Copa 2, inteiramente filmado em digital.
O segundo Kino Copa começa sobre o fracasso absoluto. Inicia o percurso em parte onde parou: é uma nova criança solitária que está a vagar sozinha diante da câmera em uma ruela. O registro é assaltado por mais um gol da Alemanha. O fracasso da seleção brasileira diante da goleada alemã inspira um dos diretores a dizer “vamos parar de filmar, acabou o filme”. Com o término do primeiro tempo, termina a Copa, o feriado... termina a alegria. É um outro Brasil que inicia Kino Copa 2 – a última Copa, negação radical do espírito otimista que entorpece a população quando da conquista do penta, há mais de uma década. Esse novo Brasil revelado pelo vídeo é fundamentalmente militante.
Estamos em 2014. O Brasil passa por uma forte crise política e sedia a Copa do mundo. O primeiro governo Dilma Rousseff estava em seu último ano atravessando inúmeras críticas e ainda assombrado pela irrupção das jornadas de junho de 2013. Uma rotina de manifestações é incorporada à cultura popular. Mascarados queimam a bandeira e o coro nas ruas repudia os investimentos no evento esportivo em detrimento à saúde e à educação. O filme enfatiza a causa indígena a partir do episódio da Aldeia Maracanã, uma pauta imprevisível em 2002 e uma consistente crítica à política governamental de todas as épocas. Apela-se para o mapa astral do país, uma forma pouco convencional para chegar a uma explicação que atesta seu afastamento, sua vocação para a periferia. A Copa não é para os brasileiros, observa a astróloga e também cineasta Cristiana Grumbach, apontando para o papel da FIFA, empresa que atravessa países com insígnia de autoridade e acentua diferenças e disparidades.
O intérprete, novamente Godô Quincas, perdeu a graça ou teve sua fé no humor fortemente abalada pelos ares da época – o que não deixa de ser fascinante e explica muita coisa que está na linha de frente do segundo Kino Copa. Parece não haver mais piada tão boa para alimentar uma performance consistente. Não há arroubo entusiasmado nem gags tão inspiradas. Em um dado momento, a realidade atravessa a performance do intérprete e atropela sua tentativa lúdica com a presença ameaçadora e truculenta da força policial. É esse Brasil que irá ganhar fôlego nos anos seguintes, com o golpe que interrompeu o segundo mandato de Rousseff e irá resultar, mais tarde, na ascensão da extrema direita ao poder – um desdobramento que esse filme não contemplou, mas certamente vislumbrou (Kino Copa 2 é finalizado em 2018, final do governo Temer).
Mas o fato é que a politização dominou não apenas a Copa de 2014, mas, sobretudo, seus realizadores e sua lista de prioridades. Como um produto de seu tempo, o segundo Kino Copa deixa claro que não há mais espaço para ingenuidade; não há clima para dedicar extensos takes a questões secundárias e curiosidades superficiais e pitorescas. No primeiro caso, os realizadores acenam para uma vontade de política, direcionando o notável deslumbre para com as tomadas espontâneas à discussão social que parece ainda incipiente, um tanto forçada. No Kino Copa 2 há uma imposição do conflito e são os achados de ordem aleatória que se tornam escassos e sem muito brilho. A comparação entre os dois trabalhos, a partir do estilo em que os depoimentos são arrumados e das questões que são abordadas, dá a ver que o discurso endureceu, embrutecendo a visão de mundo não só de filmados, mas de quem filma. O percurso entre os dois trabalhos compreende desde as expectativas em torno de um projeto possivelmente promissor de mudança à sua rápida transformação em um dos períodos mais retrógrados da história recente.
Leonardo Esteves
Professor do Curso de Cinema e Audiovisual da UFMT
Agosto de 2020
LINK para KINO COPA > https://vimeo.com/37855366
LINK para teaser de KINO COPA 2 - A Última Copa > https://www.youtube.com/watch?v=pViI9XPidAY



