quarta-feira, 1 de agosto de 2018

DESMONTE DO MONTE, UM ANTI-FILME HISTÓRICO

DESMONTE DO MONTE, UM ANTI-FILME HISTÓRICO

O que se poderia esperar de um filme "histórico"? Não muita coisa, se ele vier a partir de uma demanda de um edital do MINC em "comemoração" ao centenário da República, ou se saísse de uma linha de fomento dirigida a exaltar os grandes vultos do Brasil. Em 2007, só para citar um exemplo mais ou menos recente, as classes nobres da cultura carioca decidiram a seu bel prazer homenagear os 200 anos da "chegada da família Real no Brasil" num edital cabuloso da Riofilme (que aliás rendeu pelo menos um interessante documentáro dirigido por Terencio Porto, Cidade Invisível, que parece ser a antítese de filmes esperados pelo poder público a partir destes editais). Pois O Desmonte do Monte, realizado por Sinai Sganzerla, que ficou em cartaz nos cinemas do Rio de Janeiro e São Paulo, Vitória, Porto Alegre, dentre outras capitais e atualmente disponível para streaming no site Tamanduá TV (Canal Curta) vai numa direção totalmente contrária a tudo isso. A recepção do filme acabou surpreendendo a própria diretora: “Foi uma grande surpresa, pois o filme, que começou com uma sala de 35 lugares e cresceu bastante, foi para uma sala de 80 lugares”. Ironicamente, tudo isso depois de ouvir de muitos exibidores que “por ser um filme brasileiro, um documentário, daria prejuízo, etc”. Assim, acabou ficando em cartaz por 9 semanas e foi exibido em salas lotadas de diversas cidades brasileiras, um feito para um documentário.  
“Desmonte” é um filme que transborda a necessidade do materialismo histórico, no sentido de prescindir de arquivos (fotos, gravuras, filmes e arquivos textuais), mas não se contentar "apenas" com essa matéria prima. Por isso, nada errado em usar The Clash e Afrobeat com uma narração dos textos de Lima Barreto (quando era então cronista do Correio da Manhã). Sinai Sganzerla busca uma montagem wellesiana (ou melhor seria dizer, sganzerliana), sobre uma outra versão da história, freqüentemente omitida nos livros didáticos e discursos oficiais.  Realiza assim um elaborado exercício de pesquisa e articulação visual & sonora incrivelmente modernos, utilizando arquivos dos séculos XVI a XXI (!!!!), porém mixados, claro, com uma trilha sonora transadíssima, além de uma locução malandra de Negro Leo, que "interpreta" Lima Barreto em textos de tiro certeiro. Em dueto com Leo, Helena Ignez também ajuda a conduzir o filme com sua narração serena, que aparentemente soa como "bem comportada" num primeira audição, mas logo se percebe em seu conteúdo deliciosas subversões.
Sinai Sganzarla vai a gênese da nefasta e histórica tradição política de exclusão social de todos aqueles que não interessam ao crescimento da "economia nacional" e do "desenvolvimento do país", e penetra em questões que descortinam as origens de processos kafkianos entre governo e empresas construtoras (como a relação dos políticos cariocas com as empreiteiras, que já na década de 1920 "prestaram serviços", muito convenientes a “higienização” do então prefeito Pereira Passos, e promoveram a derrubada do Morro do Castelo), trazendo ainda relatos (visuais e sonoros) e testemunho dos acontecimentos que rolaram em torno do episódio, a diretora  articula casos de remoções atuais, como na Vila Autódromo, ameaçada de remoção a partir das obras para as Olimpíadas em 2012. Assim, Desmonte do Monte é quase um filme manifesto, e é sem dúvida fundamental para compreendermos os processos subterrâneos entre o poder público e empresas privadas, desenterrando mistérios e histórias que nossa vã e dilacerada arqueologia tupiniquim não nos permitia ver e ouvir nos documentários recentes sobre o processo de fundação da cidade do Rio de Janeiro.

Chico Serra
Pesquisador e cineasta

domingo, 27 de maio de 2018

EDGARD NAVARRO EXPOSED: CINEMA DE INVENÇÃO MADE IN BAHIA



No capítulo Esboço de uma Escola Baiana, em Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, Glauber traça uma perspectiva histórica do cinema, das artes plásticas e da literatura na Bahia,  apontando, em relação a produção cultural baiana até então, que o improviso, o romantismo e o discurso descritivo marcaram, e mal, as expressões artísticas da Bahia: “Jorge Amado (...) não carrega a disciplina de Graciliano Ramos e João Cabral de Melo Neto”. No mesmo capítulo,  faz uma análise (crítica?) da estética baiana: “a Bahia é  - na síntese - o barroco português, o misticismo erótico africano e a tragédia despojada dos sertões”.  Dentre os principais filmes do Ciclo do Cinema Baiano, entre os anos 50 e início dos anos 60,  uma abordagem social mais profunda e de inspiração neo-realista começa e questionar esta tipificação (reflexo da visita de Rossellini a Bahia?), e filmes como Um Dia na Rampa, A Grande Feira, Barravento e o premiado em Cannes O Pagador de Promesas,  com estéticas e temáticas diversas, voltam-se para outras características sociais e culturais, desmistificando o exotismo tropical de produções filmadas na Bahia por forasteiros (brasileiros ou estrangeiros).
Alguns anos depois, o cinema da Boca do Lixo influencia experiências como Meteorango Kid - Herói Intergaláctico (1969), de André Luiz Oliveira e Caveira My Friend (1970), de Álvaro Guimarães, que prepararam o terreno (ou melhor dizendo, o terreiro) para o anti-herói Superoutro “baixar” em Bertrand Duarte,  desafiando a lei da gravidade na subversão audiovisual de Edgard Navarro, realizada em 1989. Não por acaso, o crítico baiano André Setaro saca a genealogia: “Superoutro é filho de Meteorango Kid “.
Edgard Navarro Filho (Salvador, 1949), formado em engenharia civil (diploma que “trouxe um vazio enorme (...) minha alma estava em outros mundos”) e artes cênicas,  é iniciado no cinema com experiências em  super-8, ainda nos anos 70, realizando curtas e documentários provocativos, destacando a fábula psicodélica Alice no País das Mil Novilhas, de 1976. Em seguida, dirige o curta radical O Rei do Cagaço, que o próprio diretor apresenta como “filme excremental". Explica:  “foi em 77, minha segunda experiência em cinema, e o filme se constrói a partir desta cena, acho uma cena fundamental, que é a coisa do excremento, o filme era o filme anal, sobre a retenção anal, sádica, de nosso mestre Freud”.  Exposed, seu terceiro filme da “trilogia freudiana”,  é uma provocação em torno de um símbolo fálico militar (em plena ditadura) e Na Bahia Ninguém Fica em Pé, realizado em parceria com José Araripe Jr. e Pola Ribeiro, em 80, é um documentário anárquico sobre a situação do cinema de autor e livre frente a institucionalização do cinema “industrial” baiano daquela época. Estas experiências em super-8, marcadas pelo humor cáustico e precariedade técnica,  sinalizam uma crítica a um cinema industrial e apontam para um radicalismo estético, que não se via há algum tempo na Boa Terra, apesar dos esforços experimentais isolados no final dos anos 60 de André Luiz Oliveira e Álvaro Guimarães, e do curta de estréia de Glauber Rocha, O Pátio (de 1959).
Entre 82 e 84 Navarro realiza seu primeiro curta em 35mm Porta de Fogo, sobre os últimos dias de Lamarca no sertão baiano, misturando guerrilha e filme de cangaço, misticismo anárquico que ganha prêmio em Brasília em 1985. Na tentativa de se esconder dos militares na aridez nordestina, o guerrilheiro entra em crise: como conciliar um discurso urbano, de intelectual de esquerda com a  aridez, geográfica e social, daqueles sertões ?  Porta de Fogo tem duas chaves para uma tentativa de síntese da obra de Navarro: o problema da idéia de uma cultura intelectualizada e/ou dogmática (tanto de esquerda quanto de direita), frente ao primitivismo brutal do sertão e do sertanejo, e o diálogo entre uma visão política radical (a guerrilha de Lamarca) e o delírio místico e anárquico, evocado pelo cangaceiro, no ritual de passagem. Porta de Fogo é um cordel audiovisual sobre o encontro de Lampião com o Capitão Lamarca na terra do sol,  muito bem articulado visualmente.  Em 86 refilma Lin & Katazan, cuja primeira versão foi realizada na década de 70 em super-8, baseado em texto de Chico Buarque. Situando a trama num prédio em construção, Navarro faz sua catarse pessoal e apresenta uma visão bem particular da engenharia civil.
Superoutro, sua obra-prima, é provavelmente seu filme mais conhecido. Curiosamente trata-se de um média-metragem, formato bastante marginalizado no circuito exibidor brasileiro. Com influências de Fellini, Pasolini, Buñuel, Glauber e do cinema marginal,  desenvolve algumas experiências iniciadas nos anos 70, agora em 35mm, colocando em choque diversas referências culturais (da religião a televisão, na antológica seqüência do protagonista assistindo ao programa do Silvio Santos), e propondo uma libertação total, seja do comportamento, seja da crença nos valores “morais e cívicos”. Em desconcertante atuação, Bertrand Duarte é provavelmente o esquizofrênico mais carismático do cinema brasileiro, percorrendo uma trajetória épica e grotesca pelas ruas de Salvador.

Na revisão crítica realizada em Talento Demais (vídeo produzido entre 94/95),  situa o experimentalismo superoitista dos anos 70 como um contraponto temático e estético as grandes produções, sem desmerecer da luta dos realizadores e técnicos baianos, a quem o filme presta uma singela homenagem. É através desta produção “marginal“ que muitas questões existenciais, políticas e estéticas pertinentes a sua geração são jogadas nas telas. Porém há a crise e o desabafo: o experimental, no entanto, não enche a barriga de ninguém.  Meteorango Kid, visto por Navarro, entra em crise e vai procurar emprego na televisão.  Ironicamente, 15 anos depois, André Luiz Oliveira vai produzir para o Canal Brasil justamente um documentário sobre Navarro (Agonia e Êxtase). O Papel das Flores, produzido em vídeo, em 1999, conta com narração zen de Helena Ignez (musa baiana do cinema novo), e é dedicado ao fotógrafo Vito Diniz.

Se por um lado, as dificuldades nos campos da economia e política (ou a falta de políticas cinematográficas para o cinema baiano, de caráter mais experimentais), atrasaram a realização de seu primeiro longa (no livro Cinema de Invenção, Navarro é chamado de gênio e, teria longas em projeto já em 86,  segundo Jairo Ferreira), por outro, ao realizar Eu Me Lembro, apenas em 2005, demonstra total lucidez e maturidade na evocação da memória coletiva de toda uma geração, abrindo mão do experimentalismo radical de seus curtas para dar lugar a um memorial poético da contra-cultura, sem se render as armadilhas visuais de uma auto-biografia. Em O Homem que não dormia (2011),  propõe novamente a ruptura radical de uma falsa normalidade, entre a loucura e a revolta, e vai do transe místico a “tragédia despojada do sertão”, retomando a parceria com Bertrand Duarte, e ainda rendendo homenagem a um dos mestres do pioneiro cinema baiano, Luiz Paulino dos Santos. 

Neste caminho para um cinema livre, entre a loucura anárquica e a lucidez não conformista, entre a escatologia e a poesia, Navarro reinventa o cinema de invenção made in Bahia e segue deglutindo o cinema de vanguarda mundial, com seu inconfundível sotaque de baiano “arretado”.  Como diria Geraldo Pereira: “Oba ! Salve a Bahia, Senhor”.

                                                                                                            Chico Serra