domingo, 27 de maio de 2018

EDGARD NAVARRO EXPOSED: CINEMA DE INVENÇÃO MADE IN BAHIA



No capítulo Esboço de uma Escola Baiana, em Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, Glauber traça uma perspectiva histórica do cinema, das artes plásticas e da literatura na Bahia,  apontando, em relação a produção cultural baiana até então, que o improviso, o romantismo e o discurso descritivo marcaram, e mal, as expressões artísticas da Bahia: “Jorge Amado (...) não carrega a disciplina de Graciliano Ramos e João Cabral de Melo Neto”. No mesmo capítulo,  faz uma análise (crítica?) da estética baiana: “a Bahia é  - na síntese - o barroco português, o misticismo erótico africano e a tragédia despojada dos sertões”.  Dentre os principais filmes do Ciclo do Cinema Baiano, entre os anos 50 e início dos anos 60,  uma abordagem social mais profunda e de inspiração neo-realista começa e questionar esta tipificação (reflexo da visita de Rossellini a Bahia?), e filmes como Um Dia na Rampa, A Grande Feira, Barravento e o premiado em Cannes O Pagador de Promesas,  com estéticas e temáticas diversas, voltam-se para outras características sociais e culturais, desmistificando o exotismo tropical de produções filmadas na Bahia por forasteiros (brasileiros ou estrangeiros).
Alguns anos depois, o cinema da Boca do Lixo influencia experiências como Meteorango Kid - Herói Intergaláctico (1969), de André Luiz Oliveira e Caveira My Friend (1970), de Álvaro Guimarães, que prepararam o terreno (ou melhor dizendo, o terreiro) para o anti-herói Superoutro “baixar” em Bertrand Duarte,  desafiando a lei da gravidade na subversão audiovisual de Edgard Navarro, realizada em 1989. Não por acaso, o crítico baiano André Setaro saca a genealogia: “Superoutro é filho de Meteorango Kid “.
Edgard Navarro Filho (Salvador, 1949), formado em engenharia civil (diploma que “trouxe um vazio enorme (...) minha alma estava em outros mundos”) e artes cênicas,  é iniciado no cinema com experiências em  super-8, ainda nos anos 70, realizando curtas e documentários provocativos, destacando a fábula psicodélica Alice no País das Mil Novilhas, de 1976. Em seguida, dirige o curta radical O Rei do Cagaço, que o próprio diretor apresenta como “filme excremental". Explica:  “foi em 77, minha segunda experiência em cinema, e o filme se constrói a partir desta cena, acho uma cena fundamental, que é a coisa do excremento, o filme era o filme anal, sobre a retenção anal, sádica, de nosso mestre Freud”.  Exposed, seu terceiro filme da “trilogia freudiana”,  é uma provocação em torno de um símbolo fálico militar (em plena ditadura) e Na Bahia Ninguém Fica em Pé, realizado em parceria com José Araripe Jr. e Pola Ribeiro, em 80, é um documentário anárquico sobre a situação do cinema de autor e livre frente a institucionalização do cinema “industrial” baiano daquela época. Estas experiências em super-8, marcadas pelo humor cáustico e precariedade técnica,  sinalizam uma crítica a um cinema industrial e apontam para um radicalismo estético, que não se via há algum tempo na Boa Terra, apesar dos esforços experimentais isolados no final dos anos 60 de André Luiz Oliveira e Álvaro Guimarães, e do curta de estréia de Glauber Rocha, O Pátio (de 1959).
Entre 82 e 84 Navarro realiza seu primeiro curta em 35mm Porta de Fogo, sobre os últimos dias de Lamarca no sertão baiano, misturando guerrilha e filme de cangaço, misticismo anárquico que ganha prêmio em Brasília em 1985. Na tentativa de se esconder dos militares na aridez nordestina, o guerrilheiro entra em crise: como conciliar um discurso urbano, de intelectual de esquerda com a  aridez, geográfica e social, daqueles sertões ?  Porta de Fogo tem duas chaves para uma tentativa de síntese da obra de Navarro: o problema da idéia de uma cultura intelectualizada e/ou dogmática (tanto de esquerda quanto de direita), frente ao primitivismo brutal do sertão e do sertanejo, e o diálogo entre uma visão política radical (a guerrilha de Lamarca) e o delírio místico e anárquico, evocado pelo cangaceiro, no ritual de passagem. Porta de Fogo é um cordel audiovisual sobre o encontro de Lampião com o Capitão Lamarca na terra do sol,  muito bem articulado visualmente.  Em 86 refilma Lin & Katazan, cuja primeira versão foi realizada na década de 70 em super-8, baseado em texto de Chico Buarque. Situando a trama num prédio em construção, Navarro faz sua catarse pessoal e apresenta uma visão bem particular da engenharia civil.
Superoutro, sua obra-prima, é provavelmente seu filme mais conhecido. Curiosamente trata-se de um média-metragem, formato bastante marginalizado no circuito exibidor brasileiro. Com influências de Fellini, Pasolini, Buñuel, Glauber e do cinema marginal,  desenvolve algumas experiências iniciadas nos anos 70, agora em 35mm, colocando em choque diversas referências culturais (da religião a televisão, na antológica seqüência do protagonista assistindo ao programa do Silvio Santos), e propondo uma libertação total, seja do comportamento, seja da crença nos valores “morais e cívicos”. Em desconcertante atuação, Bertrand Duarte é provavelmente o esquizofrênico mais carismático do cinema brasileiro, percorrendo uma trajetória épica e grotesca pelas ruas de Salvador.

Na revisão crítica realizada em Talento Demais (vídeo produzido entre 94/95),  situa o experimentalismo superoitista dos anos 70 como um contraponto temático e estético as grandes produções, sem desmerecer da luta dos realizadores e técnicos baianos, a quem o filme presta uma singela homenagem. É através desta produção “marginal“ que muitas questões existenciais, políticas e estéticas pertinentes a sua geração são jogadas nas telas. Porém há a crise e o desabafo: o experimental, no entanto, não enche a barriga de ninguém.  Meteorango Kid, visto por Navarro, entra em crise e vai procurar emprego na televisão.  Ironicamente, 15 anos depois, André Luiz Oliveira vai produzir para o Canal Brasil justamente um documentário sobre Navarro (Agonia e Êxtase). O Papel das Flores, produzido em vídeo, em 1999, conta com narração zen de Helena Ignez (musa baiana do cinema novo), e é dedicado ao fotógrafo Vito Diniz.

Se por um lado, as dificuldades nos campos da economia e política (ou a falta de políticas cinematográficas para o cinema baiano, de caráter mais experimentais), atrasaram a realização de seu primeiro longa (no livro Cinema de Invenção, Navarro é chamado de gênio e, teria longas em projeto já em 86,  segundo Jairo Ferreira), por outro, ao realizar Eu Me Lembro, apenas em 2005, demonstra total lucidez e maturidade na evocação da memória coletiva de toda uma geração, abrindo mão do experimentalismo radical de seus curtas para dar lugar a um memorial poético da contra-cultura, sem se render as armadilhas visuais de uma auto-biografia. Em O Homem que não dormia (2011),  propõe novamente a ruptura radical de uma falsa normalidade, entre a loucura e a revolta, e vai do transe místico a “tragédia despojada do sertão”, retomando a parceria com Bertrand Duarte, e ainda rendendo homenagem a um dos mestres do pioneiro cinema baiano, Luiz Paulino dos Santos. 

Neste caminho para um cinema livre, entre a loucura anárquica e a lucidez não conformista, entre a escatologia e a poesia, Navarro reinventa o cinema de invenção made in Bahia e segue deglutindo o cinema de vanguarda mundial, com seu inconfundível sotaque de baiano “arretado”.  Como diria Geraldo Pereira: “Oba ! Salve a Bahia, Senhor”.

                                                                                                            Chico Serra

Um comentário:

  1. TRAILER DE ABAIXO A GRAVIDADE NOVO FILME DE NAVARRO: https://www.youtube.com/watch?v=OyumJEqGiBE

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