DESMONTE DO MONTE, UM ANTI-FILME
HISTÓRICO
O que
se poderia esperar de um filme "histórico"? Não muita coisa, se ele
vier a partir de uma demanda de um edital do MINC em "comemoração" ao
centenário da República, ou se saísse de uma linha de fomento dirigida a
exaltar os grandes vultos do Brasil. Em 2007, só para citar um exemplo mais ou
menos recente, as classes nobres da cultura carioca decidiram a seu bel prazer
homenagear os 200 anos da "chegada da família Real no Brasil" num
edital cabuloso da Riofilme (que aliás rendeu pelo menos um interessante documentáro
dirigido por Terencio Porto, Cidade
Invisível, que parece ser a antítese de filmes esperados pelo poder público
a partir destes editais). Pois O Desmonte
do Monte, realizado por Sinai Sganzerla, que ficou em cartaz nos cinemas do
Rio de Janeiro e São Paulo, Vitória, Porto Alegre, dentre outras capitais e
atualmente disponível para streaming no site Tamanduá TV (Canal Curta) vai numa
direção totalmente contrária a tudo isso. A recepção do filme acabou
surpreendendo a própria diretora: “Foi uma grande surpresa, pois o filme, que
começou com uma sala de 35 lugares e cresceu bastante, foi para uma sala de 80
lugares”. Ironicamente, tudo isso depois de ouvir de muitos exibidores que “por
ser um filme brasileiro, um documentário, daria prejuízo, etc”. Assim, acabou
ficando em cartaz por 9 semanas e foi exibido em salas lotadas de diversas
cidades brasileiras, um feito para um documentário.
“Desmonte” é um filme que transborda a necessidade do
materialismo histórico, no sentido de prescindir de arquivos (fotos, gravuras,
filmes e arquivos textuais), mas não se contentar "apenas" com essa
matéria prima. Por isso, nada errado em usar The Clash e Afrobeat com
uma narração dos textos de Lima Barreto (quando era então cronista do Correio
da Manhã). Sinai Sganzerla busca uma montagem wellesiana (ou melhor seria
dizer, sganzerliana), sobre uma outra versão da história, freqüentemente
omitida nos livros didáticos e discursos oficiais. Realiza assim um elaborado exercício de pesquisa e articulação
visual & sonora incrivelmente modernos, utilizando arquivos dos séculos XVI
a XXI (!!!!), porém mixados, claro, com uma trilha sonora transadíssima,
além de uma locução malandra de Negro Leo, que "interpreta" Lima
Barreto em textos de tiro certeiro. Em dueto com Leo, Helena Ignez também ajuda
a conduzir o filme com sua narração serena, que aparentemente soa como
"bem comportada" num primeira audição, mas logo se percebe em seu
conteúdo deliciosas subversões.
Sinai
Sganzarla vai a gênese da nefasta e histórica tradição política de exclusão
social de todos aqueles que não interessam ao crescimento da "economia
nacional" e do "desenvolvimento do país", e penetra em questões
que descortinam as origens de processos kafkianos entre governo e empresas
construtoras (como a relação dos políticos cariocas com as empreiteiras, que já
na década de 1920 "prestaram serviços", muito convenientes a
“higienização” do então prefeito Pereira Passos, e promoveram a derrubada do
Morro do Castelo), trazendo ainda relatos (visuais e sonoros) e testemunho dos
acontecimentos que rolaram em torno do episódio, a diretora articula casos de remoções atuais, como
na Vila Autódromo, ameaçada de remoção a partir das obras para as Olimpíadas em
2012. Assim, Desmonte do Monte é quase um filme manifesto, e é sem dúvida
fundamental para compreendermos os processos subterrâneos entre o poder público
e empresas privadas, desenterrando mistérios e histórias que nossa vã e
dilacerada arqueologia tupiniquim não nos permitia ver e ouvir nos
documentários recentes sobre o processo de fundação da cidade do Rio de
Janeiro.
Chico Serra
Pesquisador e
cineasta
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