sábado, 5 de maio de 2012


O HOMEM QUE NÃO DORMIA
E O TESOURO PERDIDO DE NAVARRO

Depois de exercitar a linguagem clássica com alguma experimentação visual em seu longa de estréia Eu me Lembro, de 2005, 7 prêmios no Festival de Brasília, incluindo diretor e roteiro, em O Homem que não dormia, Edgard Navarro assume todos riscos de fazer um filme provocador e livre,  apostando num estilo inédito, que aparentemente não tem  relação com nenhum de seus filmes anteriores. O Homem que não dormia é um filme de mistério, se aproxima de um terrir, pra ficar na definição do inventor Ivan Cardoso. Num debate sobre o filme Navarro definiu como “sessão espírita as avessas...”, mas nos jornais mais categóricos seu gênero ficou definido entre terror e suspense. Um filme estranho, certamente, de difícil  assimilação.  No entanto, se tentarmos um mergulho mais profundo, encontraremos submersas várias angustias e perplexidades de Navarro: a loucura e a repressão moral e política de uma cidade provinciana (Navarro considera sua cidade uma Macondo mas seria inconscientemente Salvador ou outra cidade brasileira?), a crítica a uma hipocrisia da igreja católica, o sexo como necessidade visceral, um certo coronelismo ancestral típico do nordeste, o sincretismo e a pan-religiosidade e a busca de uma espiritualidade mais eclética.
Se voltarmos ao final psicodélico de Eu me lembro, podemos tentar entender as cenas iniciais de O Homem Que Não Dormia como uma continuação daquela viagem de cogumelos,  porém o êxtase da sua infância em retrospectiva felliniana se transforma numa bad trip agoniada e caótica, que aos poucos se transforma numa bela e estranha narrativa. Navarro faz um filme atormentado como que pra desfazer um determinismo trágico, pra se livrar de um karma...
A base do roteiro, escrito em 1978 e que esperou mais de 30 anos para ir para as telas (seria o tesouro perdido de Navarro?) está nas prosas e na contação de histórias, mitos e lendas somadas ao pesadelo de Navarro; o Saci, a Mula sem Cabeça, a metáfora do tesouro escondido...este universo nos remete ao imaginário e as canções da personagem Creu (Valderez Freitas), de Eu me Lembro, um universo mais da senzala que da casa grande. ”O tesouro maior é aquele que liberta a pessoa da amarração do destino” profetiza a vidente, que dá consulta e banho de ervas para ao padre buñuelesco interpretado por Bertrand Duarte. Numa das seqüências iniciais com o Coronel,  retorna ao tema do suicídio metafórico (o revolver roubado do pai em Eu me lembro) e o revolver como símbolo fálico de poder.  Navarro retoma também o seu desprezo pelo autoritarismo e a loucura gerada por uma repressão moralista e católica, bem tipicamente brasileira, com o inacreditável personagem Pra Frente Brasil (Ramon Vane - Prêmio de Melhor Ator no Festival de Brasília de 2011). A busca de uma espiritualidade fora da igreja, fora da tradição católica, não deixa dúvidas de que filme e diretor são a favor de todas as liberdades, e Luiz Paulino dos Santos é a figura mística que transita entre o a realidade e a fábula e é a alma do filme (Seu Paulino como ser andante e em busca de outra espiritualidade além da pregada na igreja ortodoxa, no Santo Daime), e os planos que caminha pela incrível paisagem do recôncavo baiano cantando os hinos de Mestre Irineu devem ficar na história do cinema brasileiro moderno e ancestral.
O Homem que não dormia é um filme para ver e ouvir muitas e muitas vezes. Infelizmente, encontrará poucas telas para ser visto e escutado... Sylvia Abreu, produtora do filme, lamentou a falta de salas para este tipo de filme, no lançamento do filme no Rio, no Cine Odeon, mas Navarro considera cumprida sua missão – espiritual e criativa. 

Chico Serra

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