Nos primeiros 16 minutos de Fome assistimos longos planos seqüência feitos em steadycam acompanhando Jean-Claude
Bernadet transmutado em um morador de rua que perambula por são Paulo, vagando
pelo centro da cidade e dormindo na escadaria de uma igreja. A partir daí parece
que o filme vai virar um documentário sociológico sobre moradores de rua feito
por uma estudante universitária, só que não. O pseudo-documentário que invade o
filme é um pretexto para voltarmos ao personagem andarilho de Bernadet percorrendo
ruas, túneis, elevados, praças da cidade, encontrando outros moradores de rua,
dialogando com um ex-aluno que coloca em questão o processo de toda uma vida de
estudo e ensino sobre cinema brasileiro (bela solução do roteiro que permite um
longo diálogo reflexivo sobre a condição atual de Bernadet, que não atua mais
como professor, crítico e ensaísta há alguns anos).
De certa forma, Fome é uma bela homenagem a Bernadet e as idéias que sempre
defendeu como crítico, na contramão da abordagem da miséria excessivamente
presente no cinema brasileiro, e contra todo um pensamento de uma pretensa
“bondade e piedade” em relação a abordagem da pobreza, personificado na sua
reação violenta as atitudes esporádicas de piedade burguesa, seja na cena do
casal oferecendo comida, seja na recusa do cigarro ou da ajuda para carregar
seu carrinho de compras cheio de pertences.
No filme, Bernadet ironicamente acaba sendo
objeto de uma pesquisa acadêmica de uma estudante burguesa, em conflito
existencial com seu próprio compadecimento em relação a miséria, mas aqui o
ex-crítico não aceita esta sua condição de mero objeto de estudo e interrompe
um encontro formal do que seria uma experiência quase acadêmica para uma outra
possibilidade de relação, ao mesmo tempo uma critica sobre todo um método de
entrevista usado e abusado nos documentários brasileiros, outro alvo de crítica
de Bernadet ao longo de sua trajetória: “Porque a gente não faz outra coisa.
Por exemplo: você gosta de cantar?” Chico
Serra
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