segunda-feira, 8 de julho de 2013

FAROESTE, CABOCLO ?





Se existe um local possível no Brasil que possa nos remeter ao velho oeste (de John Wayne a Tarantino, não esquecendo Sergio Leone),as regiões centro-oeste e nordeste estão bem próximas tanto socialmente quanto geograficamente destas paisagens. Conflitos rurais, fundiários / ideológicos que por ali passam também são vistos em muitos filmes de western produzidos in america & europa (via western spaggethi & outras ramificações mais interessantes como os faroestes e alguns filmes de Jodorowsky,por exemplo). E é talvez mais próximo de Django Livre, que esteja situado o faroeste urbano de René Sampaio, inspirado na música e letra de Renato Russo. 

Entre as luzes noturnas artificiais do natal, na esplanada dos ministérios e a luz solar e ofuscante das cidades satélites (Ceilândia, nas poderia ser Milagres, BA), Sampaio encontra o cenário social e geo-político mais apropriado para esta metáfora da estrutura de classes e do conflito racial que explode em Faroeste Caboclo, o filme. Embora com uma decupagem bastante convencional, sem novidades formais,  com excessão dos planos circulares em contra-plongée do poço artesiano onde se dá a passagem de tempo numa das sequencias iniciais, o filme  é árido e violento, e esteticamente segue a trilha percorrida tanto pela estética da fome do cinema novo como pela "cosmética da fome",  de Cidade de Deus, que por sua vez é o faroeste carioca por excelência.  René Sampaio vai de Vidas Secas a Deus e o Diabo, mas chega mesmo num cinema próximo das cores saturadas da versão cinematográfica do livro de Paulo Lins, que aliás, é um dos co-autores do roteiro e diálogos do faroeste braziliense 

A vingança do pai, morto por tiro de soldado, é o início da trajetória épica de João de Santo Cristo (mas bem poderia ser Lampião), eterno mito que deve encontrar suas origens na pré-história da dramaturgia, assunto para outros textos mais específicos. Isto talvez explique tantos áridos movies, feitos desde que inventaram o faroeste nordestês (nordestern como se referia Glauber um de seus filmes com o metafórico justiceiro / jagunço Antonio das Mortes). Seguindo por esta trilha épica e cabocla, filmes western baseados no cangaço são um gênero genuinamente nordestês, outra fonte que o diretor bebe com dignidade e alguma malandragem. E Brasília o que é senão uma cidade construída pelos nordestinos, feita para morar os homens (e mulheres) do poder (do sul ou sudeste)..."Rico projeta e pobre constrói", este diálogo entre os personagem João de Santo Cristo (excelente trabalho do ator Fabrício Boliveira), e  seu amor Maria Lucia (Ísis Valverde), dá a entender onde o diretor quer chegar.

É evidente que a letra e música de Renato Russo, gravada em 1987, época do pós-punk e da ditadura militar agonizando, não caberiam num único longa metragem, nem seu realizador fez questão de ser fiel a letra, o que já é uma solução bastante instigante em termos de roteiro. Entretanto, se existe no filme abordagem de temas mais polêmicos, como corrupção entre os militares, que favorecia (e favorece) na maioria das vezes os traficantes das altas classes sociais, os demais assuntos tratados na música & letra de Renato Russo, como planos de sabotagens típicos do fim da ditadura ("Não boto bomba em banca de jornal etc..."), além dos requintes buñuelescos ("Desvirginava meninas inocentes, dizia que era crente mas não sabia rezar (...) / Ia para a igreja só pra roubar o dinheiro / Que as velinhas colocavam na caixinha do altar..."), desapareceram completamente do roteiro (ou montagem) do filme, por motivos éticos ou orçamentários(este é menos provável devido a quantidade de logomarcas que surgem antes dos créditos iniciais). Bastante sutil também é a insinuação da repressão familiar e o desbunde generalizado entre os jovens "filhos da revolução", que fumam e cheiram sem parar ao som de Plebe Rude, Legião e Aborto Elétrico.

Chico Serra

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