sexta-feira, 14 de março de 2014

Elyzeu Visconti: o exílio do terror na cultura popular




Anos 70: após produzir e dirigir dois longas experimentais, Os Monstros de Babalu e O Lobisomem, censurados pelo Governo Militar e pela própria Embrafilme sob a direção de Roberto Faria, o cineasta, fotógrafo, artista plástico e antropólogo audiovisual Elyzeu Visconti é intimado pela polícia política a depor sobre o teor supostamente subversivo de seus filmes. Com a pressão política e psicológica do AI-5, Visconti parte para um auto-exílio, no interior do país.

Na aridez nordestina encontrou as raízes culturais afro-brasileiras, que filmaria em mais de uma dezena de documentários antropológicos, como Caboclinhos e Folia do Divino, documentos sentimentais, anti- acadêmicos, sobre a arte popular, puros registros, com a intervenção da luz quente e alumiada dos nordestes do Brasil. Evidenciando a riqueza das cores e da sonoridade brasileira, Elyzeu filma a coroação do Rei de Congo, em Ouro Preto, Minas Gerais, a Festa do Jongo celebrada por descendentes de um quilombo no Espírito Santo, os blocos carnavalescos de Recife, em Caboclinhos, a feira popular na Paraíba,  em Feira de Campina Grande, a resistência das manifestações populares nos anos 80 e início dos 90 nos subúrbios do Rio  em  Rio Sertão: uma homenagem a riqueza cultural carioca, uma ode ao que ainda resta das paisagens naturais dos bairros da zona oeste do Rio de Janeiro.

Quem assistir ‘a obra cinematográfica de Visconti apresentada nesta retrospectiva na  Mostra do Filme Livre, vai encontrar dois tempos paralelos-coexistentes,  o da ficção e do terror-naturalista-anárquico de Babalu e Lobisomen, e a obsessão, quase uma militância, do documentário sobre as raízes culturais do continente Brasil. Não foi ‘a toa que Visconti declarou, numa exposição de seu acervo fotográfico sobre a Folia dos Reis e a Festa do Divino, que seu trabalho era sobre a cultura popular brasileira, nada a ver com rock and roll, e que as instituições e o governo que deveriam valorizar e apoiar esta cultura quase nunca tem recursos, mas  se fosse para comprar um chevrolet, aí sim, aí teria dinheiro ...








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